domingo, 25 de julho de 2010

Das utopias políticas vanguardistas num mundo nada personalista

Parte I de III – Culpa do político

Se é correcto afirmar que cada vez mais nos perdemos no fluxo corrupto a que assistimos, sem saber no fim para onde nos direccionamos politica e paulatinamente, mais correcto será dizer que a culpa é, em dada medida, distribuida e que parte é nossa. Outra fatia pertence ao político. E a última, a meu ver, ao professor.
A mentalidade do produtor, quando tacanha e pessimista, e o próprio produtor, desvalorizado e corrompido (e quem começa primeiro nunca se saberá) são combinados numa soma de corrupção e preguiça cujo objectivo é uma monotorização expressiva de interesses particulares. Interesses movidos, assinalando a culpa ao político (wanna be), pela partidirização parlamentar e consequente desgovernação social num contexto em que o sistema legislativo se incorpora no político e se absorve no mesmo, caindo por terra a legitimidade jurídica da lei escrita como fonte manifestandi de ius e movendo-se como se de o mesmo se tratasse. Quando o político olha para o problema apresentará sempre uma solução institucionalizada em que o próprio homem será uma instituição, se a entendermos como um grupo organizado que se prolonga no tempo, pois a sua existência não se advinha extinta em 2012. E como tal, feito companhia desumana, é estudado e criticado, ponto de retorno na tese política actual que não possui individualidade, autonomia ou independência como referências, valores diferentes que a democracia pressuporia, como forma governativa actualista. Mas, a vanguarda política já não é democrática. A tese constitucional não é também psicológica, é meramente utilitarista. Não reflecte a mentalidade, mas a meta utópica de uma ambição desmesurada por dinheiro, poder e reconhecimento. E nunca na história, democracia pura foi definida como a satisfação de um bem que não o comum, ao invés de ser encarada como instrumento de sobrevivência na elite governativa.O governo dos homens segundo Platão já foi contraposto pela tese aristotélica que abraça o governo das leis. Se uma nega a outra? Nem por isso. Para o mal de todos, são eles que as fazem e controlam a produção legislativa que está, por sua vez, descontrolada.
Se é errado negar a materialidade democrática portuguesa, não será certo, porém, afirmar a sua totalitariedade. Não são oito ou oitenta - são zero! - é o quanto vale actualmente a acção governativa (até estão agora em voga os critérios numéricos para avaliar um país!) que não faz da defesa do indíviduo singular, apto e produtivo e da satisfação das respectivas necessidades um objectivo mas sim uma fonte de despesas a evitar. E, numa sociedade cujo liberalismo económico é levado a extremos para que se tente salvar da crise em que entrou durante o último semestre de 2008, nada é mais importante para o esfomeado pelo poder que manter os números (privados) em obra, promover a economia liberal sem promover o nível de vida ao cidadão já pobre e levando a que, num esgotamento de projectos privatizados, o sector público tenha de ir em auxílio da situação económica que os mestres não controlam. E, de novo, olhando para os interesses privados e para a análise macroeconómica do país, o índividuo é esquecido.
Uma das principais objecções à liberalização total do aborto é para mim a potencialidade do nascituro. Não tanto o ser biologicamente vivo, mas antes o ser um leque de potenciais, de possibilidades que, podendo cair no erro de contrariar a mentalidade portuguesa, sendo optimista, podem englobar, quem sabe, um político no verdadeiro sentido da palavra. Porque os políticos de hoje abortam a nossa individualidade enquanto pessoas e entendem-nos como mero capital humano movido pelas cordas eleitorais que os levam ao palanque. E então posso dizer sem remorsos, que a culpa é deles por não sabermos como viveremos daqui a anos, mais breves que imaginamos, e mais pobres que o prometido.
Na tentativa de acompanhar um fenómeno globalizador a Europa, como o primeiro motor da economia mundial, não o actual (que é os E.U.A.), entra numa lobotomia política de lavagem cultural, que apaga uma tradição para impor um padrão financeiro de sobrevivência e para manter uma relação intraestadual que aparente nada mais que uma simpatia apenas por decência. Foi o que aconteceu com o esforço europeu para, a partir do FMI e de fundos internos manter a Grécia à deriva apenas visualizando ratings estabelecidos por empresas americanas como a Fitch, mais actual e popular, cujos estatutos duvidosos deviam ser, eles próprios, avaliados por empresas europeias. Ainda assim, são desprezíveis, quaisquer meios de atribuir a um país uma qualificação numérica para o colocar num ranking, como se ao invés de um povo num território e de uma procura pela pacificidade, investigássemos um ponto numa tabela à procura de competição. E não é do que se trata realmente?
Como se verifica, não há uma busca ao respeito pelo humano, social, económico ou político. Há uma busca, vestida de pretextos falsos e ganância, pelo prémio do reconhecimento internacional. O intrigante é que o nacionalismo cresce e sofre com o processo: cresce porque as aparências não são apenas mantidas no estrangeiro e sofre porque de nacionalismo vem a noção de “nação” e esta já poucos políticos a conhecem. E assim sendo, cresce transformado, um mutante do valor espiritual que o valor da moeda veio substituir.