segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Das utopias vanguardistas num mundo nada personalista

Parte II de III - A culpa do Professor


Entre muitos, Ken Robison é apologista de que não bastam medidas de austeridade macroeconómicas para superar a crise iniciada em 2008. Pelo menos não de forma inédita. Foi na esteira da política de interdependência económica internacional que quando uns se afundaram os outros se afogaram e será na mesma linha política que quando uns renascerem outros ressuscitem. Mas nem todos estarão aptos, penso eu, a concretizar esse regresso da mesma forma. E com isso digo que, dada a lesão que a crise provocou, nem a todos as medidas de austeridade e rigor financeiro e caseiro bastarão. Já mostrarei onde quero chegar.

Antes, é de referir um infeliz acontecimento. Por motivos de saúde não compareci ao segundo semestre da cadeira de Filosofia do Direito, leccionada pelo Professor Eduardo Vera Cruz Pinto, em substituição do Professor Curado Neves (e sim, eu vi-o Professor), mas ainda assim vieram até mim os sumários daquela que seria, ou pensava-se que seria, a principal cadeira na formação de qualquer aluno que inicia os seus estudos para se tornar futuro jurista. Ora, o Professor Vera Cruz sabe sempre surpreender, e não falo da stand-up comedy variar de aula para aula, mas da cagança pedagógica a que se assiste em qualquer cadeira que venha a erradamente ensinar. Desta, a porcaria foi grande de mais. Começou por avisar os alunos de que teriam um guia de estudo na reprografia para se prepararem para o teste no final de Maio. Até que, três semanas antes do teste, surge o tal guia de estudo encadernado e pronto para compra nas livrarias jurídicas de Lisboa, sem qualquer bibliografia e a 23 euros a unidade. Parece-me a mim que as fotocópias sairiam mais baratas. Este “guia” era composto por seis capítulos que, avisou de antecedência o Professor, seriam as seis questões a saírem no teste, de entre as quais escolheriam os alunos três para darem as respostas previamente discutidas nas aulas. Um mês depois, e dois meses depois, o teste repetiu-se nos exames de primeira e segunda fase, este último no qual houve um aluno a entregar, literalmente, uma folha teste com as respostas que havia trazido de casa. Aparte desse aluno estava eu e outra aluna que copiava as respostas de uma folha a parte, freneticamente, como se três horas de exame não chegassem para passar a limpo as respostas a três perguntas. Não gostando do que vi, sai para falar com o Professor regente que me chamou a um canto e me tentou vender a ideia de que oferecendo positivas a todos contribuía para a respectiva boa formação nesta faculdade de Direito que daqui a três anos estaria a funcionar, imagine-se, com testes de cruzes e escolhas múltiplas. Já lá vão os dias em que o aluno de Direito deveria saber escrever e falar!

Parece tudo isto demasiado. E demasiado pouco relativo à saída da crise. Mas, de uma forma resumida, a ideia de Ken Robison foi a de, quando, há onze anos atrás, escreveu o Robinson Report, também chamado de All Our Futures Report, incentivar o governo a arriscar mais e a adoptar medidas no sector de que menos se fala quando nos referimos a medidas de austeridade - a educação. E não falou desta de uma forma financeira. Para Robinson, a resposta à crise está na criatividade, e é na escola que esta se começa a desenvolver, se incentivada a tal. Desde cedo a relação entre o educador e o aluno se torna essencial para que o segundo deposite a sua confiança no primeiro e se sinta suficientemente à vontade e independente para dar corda à imaginação. Que a maioria dos professores que me deram aulas não fossem minimamente vocacionados para o fazer, não será surpresa para ninguém. E dessa probabilidade massiva vem uma destrutiva consequência. Os alunos não são incentivados a desenvolverem por si mesmos os problemas com que trabalham em casa disciplina. Não recebem um estimulo. Recebem, por parte de professores como o referido, presentes, por caírem na via do facilitismo. Antes são obrigados a ouvir a perspectiva que é dada como convenção e veja-se, como muitos desses abominam a catequese porque não acreditam no menino Jesus, aqui não torcem o nariz e aceitam a ciência como se fosse lei de Deus. E o processo é a bola de neve que já conhecemos. Se não estão motivados, não gostam. E, se não gostam não fazem. E se não fazem temos de descer o nível dos exames nacionais para que os resultados não piorem. Para que as médias não subam nem desçam. Para que cada aluno esteja ciente de que ir para o que o torna especial e genuíno não é uma escolha saudável. Primeiro, porque pode não entrar, e segundo porque pode não ter emprego. E assim crescem obcecados com as ideias erradas. E assim se fazem maus profissionais. É que a criatividade faz o gosto, e este desenvolve aptidões. De que vão ser feitos os futuros profissionais que não delas?

A economia dos E.U.A confrontou-se nos primeiros momentos da recessão com um facto interessante. A curva de Beveridge que representava a criação de novos postos de emprego em função da taxa de desempregabilidade mostrava que apesar da primeira variável aumentar a segunda estagnava. Economistas americanos procuraram a razão e a forma de redesenhar a curva na sua linha original. Uma das razões para as quais havia uma solução era que muitos dos trabalhadores não tinham aptidões para os cargos oferecidos. Talvez se um dia, em casa ou na escola, tivessem dito que serias bom artista em vez de bom engenheiro com emprego garantido, haveria agora mais uma vaga preenchida. E mais um exemplo para o próximo sonhador de que ainda pode encontrar emprego a fazer aquilo de que mais gosta.